Mensagens escritas sobre o vidro: a transparência em tempos de Covid-19, por Riccardo Donati

 

Claudio Parmiggiani,


Entre os efeitos da pandemia de Covid-19, além dos coros infernais de vozes disfóricas e de coros angelicais de quem destrói o medo com solvente de fáceis pensamentos reconfortantes, houve uma nova onda de vitrinização do mundo. Explico melhor. Nos últimos duzentos anos se assistiu à realização – ou somente à concepção, à criação fantástica – de miríades de superfícies, esquemas, paredes, estruturas e divisórias translúcidas. Das vitrines comerciais às casas de vidro, dos shoppings centers aos biodômes e às biosferas, a transparência foi um elemento chave do modelo de desenvolvimento do mundo contemporâneo; e o foi tanto no plano da prática concreta de instalação de espaços e criação de objetos (o que chamaremos função) quanto no plano imaginário compartilhado, subjacente àquelas formas concretas e por aquelas formas alimentado (aqui nomeado ficção). Tudo o que é sólido desmancha no ar, escreveu Marshall Berman em seu ensaio capital sobre a modernidade: entre outras coisas, a primeira onda de vitrinização do mundo significou uma progressiva decomposição das paredes como barreiras visuais, ainda que elas tenham mantido inalterado o seu papel de distanciar, silenciar, isolar os outros sentidos (para quem quiser se aprofundar, indico o meu ensaio Critica della trasparenza. Letteratura e mito architettonico).

 Agora, essas transformações não são, de forma alguma, sem consequências. Existe evidentemente uma correlação direta entre a necessidade de impor um distanciamento (portanto, literalmente, criação de uma separação entre os indivíduos) e a tentativa de uma sua ilusória, imediata (e sublinho: imediata) anulação. Estar muito próximos, mas não poder se encostar; tocar-se com o olhar, permanecendo, contudo, intangíveis; estar dentro, sem nunca, porém, encontrar-se visualmente excluído daquilo que ocorre do lado de fora. Esse duplo movimento de (verdadeiro/falso) distanciamento e (verdadeira/falsa) aproximação não é somente um fato físico (nenhuma experiência para um ser humano é apenas física): é uma tarefa da mente, da consciência, até mesmo, do espírito. A sua total falta de naturalidade em relação às coordenadas do nosso sistema perceptivo induz a um estado de suspensão, de quase transe ou narcose; dispõe-nos em um precário equilíbrio psicoemocional entre a realidade concreta e a fantasmagoria.

 A gestão médico-política das primeiras “fases” da epidemia de Covid-19 impôs um isolamento forçado (e, ao mesmo tempo, um ativismo acrítico, fruto de uma espécie de reflexo condicionado) que multiplicou, em escala global, as ocasiões da vida “em transparência”. Eis aqui o que é a nova onda referida acima. Na primavera de 2020, o valor imunossistêmico das superfícies diáfanas – que uma longa tradição até mesmo artístico-literária considera como eminentemente puras, estéreis – pôde se manifestar em um nível imediato, primário, biológico. Aludo aos dias transcorridos em quarentena por centenas de milhares de indivíduos que por muitas semanas viveram “nas janelas”, com o nariz colado nas placas de vidro concebidas e instaladas com a finalidade de separar o fora (a liberdade, o risco) do dentro (a reclusão, o refúgio). Penso, além disso, nos capacetes para ventilação não invasiva, nos óculos, nas viseiras e nos outros dispositivos de proteção individual e coletiva empregados dentro e fora das estruturas sanitárias, como escudos contra o vírus. Penso, sobretudo, no multiplicar-se de barreiras de acrílico instaladas nas repartições públicas e, pelo menos em alguns países, em restaurantes, bares, cinemas, igrejas (em suma, em todos os lugares de troca e encontro) para fins profiláticos. Já há algumas semanas, em Amsterdam, jantares são feitos ao longo dos canais da cidade dentro de pequenas e românticas estufas equipadas. Mais do que qualquer outra coisa, chamou-me a atenção a proposta feita por uma empresa italiana de instalar barreiras de acrílico nas praias, de modo a isolar os banhistas, cada um confinado no próprio pedacinho de areia infértil. Provavelmente a iniciativa cairá no vazio: mas já é muito significativo que tenha sido concebida e avaliada como uma hipótese possível. A ministra da educação está falando nesse momento das carteiras escolares com separações anticontágio. Durante esse período, foi-nos definitivamente esclarecido, e imposto, o valor insubstituível das tecnologias digitais, que são a consequência final do sonho de desmaterialização presente em todas as utopias e distopias da transparência: não existem melhores janelas (windows...) pelas quais olhar o mundo do que estas (nos é dito), e deveríamos nos esforçar um pouco mais para apreciar o admirável instrumento que nos permite permanecer em contato (stay in touch, como dizem os anglo-saxões) sem ter nenhum contato. Compartilhar sem se misturar; seduzir e privar; favorecer conexões permanentes diante de uma desconexão prolongada de laços sociais; imergindo a todos e ninguém em uma impalpabilidade espectral: eis como os bits governam a vida a distância.

São todas mensagens escritas sobre o vidro, que dizem: encontremos o modo de combinar direito à saúde e aos prazeres sociais com segurança do indivíduo, a necessidade de relação com a necessidade de uma reclusão protetora. Façamos uma tentativa coletiva racional de viver vidas privadas. Vistos a partir dessa ótica, os cenários escatológicos, de apocalipse ou revolução, que filósofos e intelectuais previram nessas semanas poderiam parecer decididamente exagerados. E talvez o sejam. Mas isso não nos exime do dever de refletir sobre essas “tentativas racionais” de gestão da coisa pública que passam por progressivas, massivas injeções de racionalíssima transparência. No entanto, por que deveríamos nos recordar de que a função (as práticas concretas) não é tudo? Somente na combinação com a ficção (o imaginário subjacente) ela adquire sentido ou modifica o sentido que tem, em direções frequentemente imprevisíveis. Por aquilo que nos é permitido ver, e prever, do restrito observatório da Europa do início de junho de 2020, o que temos de esperar é uma maciça vitrinização das arquiteturas, do design dos espaços, talvez até mesmo das paisagens externas, além dos próprios corpos. A função de tais obstáculos, de tais inibidores do contato físico (mas não ótico, vale a pena repeti-lo: a pura visibilidade, entre as características precípuas da civilização da transparência, está absolutamente garantida, aliás exaltada pela relativa privação de outros sentidos) é evidente e, repito, “racional” proteger do contágio, reduzir os riscos de que a pandemia se espalhe. A ficção que se lê nela, sem dificuldade, em filigrana, põe-se em continuidade com longos anos de imaginário distópico (aquele do pós 11 de setembro, em especial, mas também a forma de alguns objetos, penso nas viseiras, de aspecto curiosamente retrô, que recorda a ficção científica dos anos 1960-1970), os quais tornaram familiar, e, em última instância, aceitável, além de uma sigla sci-fi como Covid-19, a hipótese de uma limitação da nossa própria fisicidade (possibilidade de deslocamento, de relação, etc.) e de uma reconfiguração da paisagem sensorial na qual estamos imersos. De resto, no século XIX, o surgimento da arquitetura transparente, e penso em particular no Crystal Palace de Londres e nas primeiras lojas de departamento, foi acompanhado e apoiado por massivas doses de imaginário fantástico pregresso, neste caso, principalmente euforizantes: os contos de fada, os mitos, as epopeias de cavalaria. Em síntese: ontem, assim como hoje, a vitrinização do mundo é acompanhada por uma promessa de normalidade junto com uma promessa de excepcionalidade, ambas racionalíssimas e ao nosso alcance, ambas lunares e fantasmagóricas.

É difícil pensar que um projeto macroimunológico dessa magnitude, capaz de desencadear o primeiro grande fenômeno de stand-by socioeconômico em escala global desde o final da Segunda Guerra Mundial, não implique transformações ou pelo menos mudanças de ritmo no plano da redefinição dos ambientes vitais, além daquelas esperadas no campo das orientações psicopolíticas. Sim, mas até que ponto e em que direção? Até o momento, não se veem tentativas para sair da rota já traçada, para abandonar o caminho que a modernidade, que sobreviveu, sem se descompor, aos totalitarismos, a duas guerras mundiais e a várias crises econômicas, percorreu até aqui. A transparência é ainda e cada vez mais o cavalo no qual nossa civilização – que insistimos em identificar com a civilização, vendo em seu possível fim também o fim de toda a civilização – pretende apostar para se perpetuar. É isso que fazem todas as sociedades desde sempre: elas aspiram a manter seu equilíbrio interno, por mais questionável e precário que ele seja.

Pode ser, porém, que a atual combinação de imaginário e administração biopolítica, na sua imprevisível mistura, torne a transparência cada vez menos útil para responder de forma transparente às tarefas que lhe são atribuídas. Na tela barata da viseira sanitária que protege o rosto dos que estão à nossa frente, certamente podemos ver o reflexo, por transparências multiplicadas, do rosto único de uma época, mas talvez no fundo também a sombra enigmática do que virá.

Claudio Parmiggiani,
A própria perspectiva de que as cidades podem se tornar cada vez mais, e por tempo indeterminado, labirintos de superfícies diáfanas, de que a sua integralidade espacial pode se dissolver em um retículo de diafragmas divisores e de que o rosto do nosso próximo pode ser destinado a se enquadrar, pelo menos nas suas manifestações públicas, no perímetro fechado de viseiras, barreiras de proteção, painéis e telas variadas, faz com que não saibamos para onde seremos conduzidos. Com base no passado e nas tendências ideológicas em vigor, podemos tentar propor quatro questões úteis para refletir sobre aquilo que a nova onda de transparência poderia significar:

 1. por que estamos lutando para imaginar uma gestão do ambiente (dos ecossistemas) que não passe por mais compartimentalização, fragmentação, desmembramentos em subunidades?

A permeabilidade, a continuidade linear, a troca e o trânsito descontrolados de ar e de corpos são hoje como nunca antes dificultados e impedidos: não é apenas uma questão técnica ou médica, mas uma postura mental. A hipótese de engaiolar as praias dentro de paredes de acrílico, criando grotescas arcádias típicas de farsas concentracionistas, é uma demonstração plástica – no duplo sentido da palavra – de tal orientação. E o que dizer da perspectiva de classes compartimentadas? A tendência à fragmentação do ambiente em espaços racionais finitos é uma coação da qual, aparentemente, não sabemos fugir, uma tendência que a prática da transparência incentiva e multiplica. Apóiam-na massivas doses de imaginário isolacionista aterrorizado, oportunamente contrabalanceadas por impulso igual e contrário a sonhar evasões e fugas em espaços ininterruptos e sem limites: exemplos nessa direção são os comerciais de carros, caixas de vidro lançadas em corridas à disparada em paisagens infinitas;

 2. por que o propósito de incrementar muros e paredes divisórias utilizadas para confinar o outro (que já é qualquer um, se toda a vida, inclusive, aquela do genitor, do irmão, do amigo, é potencialmente indesejada por ser suspeita de estar poluída, infectada e por ser prejudicial) parece, no fim, aceitável?

Vêm à memória os habitantes do planeta Solaria, imaginado por Isaac Asimov: totalmente dependentes da tecnologia, eles evitam se ver (seeing), preferindo visualizar-se (viewing) a distância, uma vez que consideram repugnante a ideia de compartilhar o mesmo ambiente e, portanto, a respiração, com outro organismo vivo. The human touch is gone, “o toque humano se foi”, lê-se em O sol desvelado (1957).Talvez para nós, habitantes do século XXI, assim como para os solarianos de Asimov, a perspectiva de renunciar ao outro não contraste, aliás, pode muito bem se conciliar com o imperativo irrenunciável de esparramar ainda mais os mecanismos de circulação do desejo de consumo de bens e serviços no interior de espaços onde somente a luz, talvez, artificial, mórbida e controlada, e não o indisciplinado sopro de ar, possa fluir sem obstáculos. Logo: a vida biológica com a rua bloqueada; as mercadorias em trânsito constante e ilimitado ao longo de estradas do mundo todo, sejam elas pavimentadas de asfalto ou de pixel (o segredo obsceno da vida desinfectada é o trânsito de corpos que a torna possível: motoristas de transportadoras, entregadores, motoboys etc. Para não falar naturalmente do trabalho de bastidor dos profissionais médico-sanitaristas, cuidadores, empregadas domésticas, garis e coletores de lixo). Nada mais provável que o mundo vitrinizado acelerar os processos de divisão social já em andamento há tanto tempo, ampliando os limiares que articulam e separam aquilo que está dentro daquilo que está fora, distinguindo de uma vez por todas quem tem (direito à vida, que hoje significa sobretudo direito à produção e ao consumo, pelo menos, a julgar por algumas das decisões tomadas nesses meses pelos governos ocidentais) de quem não tem (esse direito). O projeto no coração do moderno, somente ocasionalmente e localmente freado por mecanismos inibidores, parece hoje poder se realizar com uma amplitude e uma facilidade até há pouco tempo impensáveis: e o seu correlato fantasma ficcional é o que mais uma vez dá suporte à sua funcionalidade. A fabulação otimista-consoladora dessas semanas de pandemia (da qual se encarregaram, não casualmente, muitas marcas comerciais), com rios de slogans, vídeos, músicas e narrações entre o conto de fadas e a alucinação, com efusões de pathos ou alegria filtradas através do vidro colorido da imprensa, vai exatamente nessa direção. Há pixels no lugar de tinta, mas estamos ainda na boa, velha e amada idealização do capitalista (rebatizado homem de negócios, manager, CEO) como redentor da humanidade...;

 3. Quais indicações devemos extrair sobre os futuros arranjos políticos sempre mais dissimulados de que seja almejável viver em uma sociedade bem regrada, em que todos são chamados a agir em razão de uma vontade superior, coagidos pelo melhor, pelo correto, pelo saudável, dentro de uma espécie de harmonia rousseauniana preestabelecida da ordem coletiva?

Não penso, para ser claro, no risco de um retorno ao totalitarismo do século XX, mas na perspectiva de um estado de exceção biopolítica permanente, governado por uma ratio gerencial-tecnocrata, policêntrica e indefinível, um processo que bem antes de Foucault e dos seus continuadores havia sido antevisto pelo “homem-rato” de Dostoiévski. Um resultado que já se escondia embaixo das cinzas das democracias liberais-sociais, mas que a nova onda de vitrinização do mundo poderia explodir. Seria esse o Éden: uma sociedade que aspira a ser autorregulada, automoralizada, expurgada de qualquer escória, falta, desvio da norma; uma coletividade pelo menos na aparência (na superfície: aquilo que permanece submerso, fora de cena é outra história...) lúcida, lisa e luminosa (mas também gélida, repelente e, ainda, afiada quando o vidro se estilhaça...) como o vidro. O estado de exceção dessas semanas de pandemia convenceu muitos, como nunca antes havia acontecido, de que é desejável e vantajoso viver em um regime de vigilância panóptica – por meio de janelas, telas de drones ou viseiras tecnologicamente implementadas. A vida de colmeia dessa primavera de 2020 já induziu muitos a abraçar espontaneamente um regime de controle recíproco: destapando com olhos gananciosos as intimidades das casas alheias para desabafar as frustrações cotidianas, aprovando incondicionalmente o desenvolvimento de dispositivos tecnológicos capazes de traçar os deslocamentos dos cidadãos e, mais em geral, exaltando a transparência como o melhor e, talvez, o único critério de gestão da convivência civil. Talvez por isso se tenda a emoldurar o mundo através da função/ficção purovisibilista: para se dar a ilusão do controle e, com tal ilusão, acalmar-se e, acalmando-se, fazer de conta que se está mudando tudo para não mudar nada.

4. No plano do sentimento coletivo e da linguagem que o veicula, a perspectiva de uma difusão da vitrinização da vida não induz, talvez, a reviver aquela atemporal nostalgia pela restauração de um equilíbrio espectral (uma vez que a nossa sociedade é, ainda assim, romântico-idealista nas suas linhas gerais), que constitui o maior freio para qualquer hipótese de transformação no sentido igualitário e libertário-não-liberal das nossas sociedades?

Atrás da compacta e inviolável chapa da vida na vitrine, o enxame biológico para, mas o mesmo não ocorre com o vírus da linguagem, que se transforma ora em retórica patriótica-tardia (a defesa do “lar”, feroz e interesseira), ora em melaço de doces pensamentos irenistas, ora em um niilismo maximalista vazio. Prospera, de qualquer modo, nas mensagens escritas sobre o vidro da última tecnologia na moda, aquele entrecruzamento de emoções variadas, mas de todo modo enquadradas no interior de formas convencionais, que impede novas formas de coagulação comunitária e sufoca qualquer tentativa de refundar, sobre bases menos limitadas e obtusas, a esfera do imaginário. Difícil nesse contexto prospectar uma diminuição da transparência que escancare aqueles novos horizontes econômico-político-criativos, da qual teria desesperadamente necessidade mesmo uma sociedade fortemente conturbada como a nossa (isto é, em um estado de sofrimento material e emotivo, compreensivelmente assustada por cenários de privação inimagináveis em toda a segunda metade do século XX).

 Qualquer que seja o futuro que nos espera, o fato de que se tenha reagido à emergência fazendo propagar a transparência torna evidente, como nunca antes, as contradições não somente econômicas, mas até mesmo biológicas e ecossistêmicas que estão na base das nossas sociedades. Nenhum cenário, por mais sombrio que seja, nos autoriza à rendição. Não está escrito em lugar nenhum – ou, melhor, está escrito por todos os lados, em uma infinidade de telas – que seja necessário se render diante do enorme poder das funções, e respectivas ficções, que a época nos vende como inevitáveis.

Penso em Claudio Parmiggiani de Labirinto di vetri rotti [Labirinto de vidros quebrados] (uma performance de 1970 repetida, posteriormente, até os anos 2000), na pesada marreta que adentra o dédalo só para depois despencar nas cristalinas paredes daquela gaiola diáfana, luminosa, mas inabitável, até fazer delas um amontoado de ruínas transparentes. Quem trabalha para refundar as linguagens e o imaginário talvez sonhe, mas não há outro modo para preparar o mundo que virá.

Tradução Graziele Frangiotti

Agradecemos a autorização para a tradução ao autor e Le parole e le cose

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