Épocas, cosmogonias, perfeições precárias: os deslizamentos da obra de Fabio Pusterla em Argéman: antologia poética

 

Prisca Agustoni. Fotografia de Lara Toledo.


Penso que um bom tradutor é aquele que sabe ouvir: o outro, o silêncio, a própria voz.
 

Entrevista concedida a Júlia Bellei em 22 de outubro de 2021
 
Em um diálogo marcadamente sutil e perspicaz com a obra de Fabio Pusterla (Mendrisio – Suíça, 1957), a professora, tradutora e poeta suíça Prisca Agustoni (Lugano – Suíça, 1975) organiza a primeira antologia brasileira dedicada ao trabalho do autor: Argéman: antologia poética (2018, Edições Macondo). Evidenciando uma atmosfera esteticamente atravessada por fragmentos da natureza, a coletânea ressoa uma dimensão ética e política, que sugere não apenas um olhar inquieto perante os elementos que nos circundam, mas também perante a complexidade das camadas que os engendram desde as eras mais remotas. Pedras, cadáveres, troncos, cartilagens; detritos acumulados, que remontam épocas longínquas: tudo se encadeia em palavras silenciosas, advindas de vozes que, despretensiosamente, restam como sopros de uma ausência, como rastros que perseveram.
Em meio a um contínuo movimento arqueológico de busca pela substância lexical e pelos feixes de sentido ainda por vir, as composições contempladas salientam uma intensa disponibilidade à vida, em suas infinitas formas e suspensões. Dessa maneira, Pusterla verte o ritmo interno de sua poesia para além das fronteiras helvéticas, intervindo na paisagem literária de seu tempo e atribuindo à sua escritura uma tonalidade universal, já que congrega seres orgânicos e inorgânicos, vestígios urbanos e selvagens e, até mesmo, as “perfeições precárias”[1] típicas de toda matéria que resiste, de todo corpo que se permite manifestar, não obstante a exiguidade que o constitui.

Denotando análoga sensibilidade e comum receptividade às diversas nuances mundanas, Agustoni também compartilha com o escritor mendrisiense uma experiência existencial assinalada pelo contato com diferentes realidades linguísticas e socioculturais. Nesse sentido, estabelece com a prática tradutória uma relação particularmente intrigante, sobre a qual versa ao responder a uma série de perguntas vinculadas à elaboração de Argéman. Aludindo ao feitio crítico e enigmático que perpassa os poemas traduzidos, revela aguçada delicadeza de perspectiva mediante os variados cenários escavados e projetados na tessitura textual. Ademais, discorre acerca de sua vivência com a palavra, vivência essa que, revolvendo os domínios do simbólico, configura um espaço de acolhimento: de si, do outro e das lacunas que, aparentemente, os distanciam. A seguir, a entrevista direcionada à poeta. 
 
Quais fatores motivaram sua escolha pela tradução das obras de Pusterla? Que características do autor mais chamam a sua atenção?
 
Nasci e cresci na região da Suíça italiana, um pequeno cantão de aprox.450 mil habitantes que falam italiano, situado na fronteira entre, ao norte, os Alpes (e a língua alemã) e, ao sul, a Itália (Milão fica a quarenta minutos de carro da casa onde mora minha família). Pusterla é, sem dúvida, o poeta mais importante e influente para a minha geração de poetas: quando eu e meus colegas de “geração” começamos a escrever, lá pelo final dos anos noventa, começo dos anos dois mil, estávamos lendo as obras de Pusterla (Bocksten, Folla sommersa etc.). A relevância de sua trajetória estava se destacando sempre mais fora do perímetro da nossa região e também fora da chamada “linea lombarda”, na poesia italiana. Cada vez mais críticos e leitores italianos reconheciam, em sua obra, uma voz singular, em diálogo com a tradição da linha lombarda, mas também com traços singulares emergentes. Paralelamente a isso, ao norte, para além das fronteiras dos Alpes, na Suíça de língua alemã ou francesa, traduzia-se cada vez mais sua poesia, reconhecendo-a como uma das mais importantes do país, atribuindo-lhe prêmios importantes. E Pusterla começou a se destacar também como atento tradutor de poesia francesa, especialmente do poeta Jaccottet, recém-falecido.
No entanto, é preciso dizer que o fator que mais aproximou Pusterla dos leitores da minha geração na nossa região foi o fato de ele ser professor de ensino médio, um excelente professor de literatura, disponível e presente para sentar no bar e conversar ou sempre presente nas manifestações e nos festivais literários da região.
O poeta, o professor, o tradutor, o intelectual e a pessoa comum. A junção dessas figuras numa única pessoa fez e faz de Fabio Pusterla um nome incontornável na Suíça hoje, assim como na vizinha Itália.
Quanto à sua obra, acho que seria difícil resumir aqui as características que me parecem mais importantes. Acho que, em linhas gerais, Pusterla mantém certa tendência ao antilirismo do sujeito, caro à linha lombarda, aliado a um olhar sempre muito tensionado sobre a sociedade contemporânea e a história às vezes insignificante das pessoas comuns.
 
A obra Argéman: antologia poética apresenta poemas passíveis de serem encontrados em dois livros de Pusterla: Argéman e Corpo Stellare. Embora este seja, cronologicamente, anterior àquele, sua inserção na antologia brasileira se deu posteriormente à inserção do primeiro. Que critério suscitou tal opção sequencial? Além disso, que parâmetro direcionou a seleção textual e a associação entre as obras mencionadas?
 
Sempre tive o desejo de traduzir a poesia do Pusterla, assim como a de outros poetas suíços e italianos. Colaborei com diferentes revistas literárias, propondo traduções, e já publiquei alguns poemas do seu livro Bocksten, na revista Ouroboro, de Curitiba, em 2005.
A ocasião para concretizar esse meu desejo foi o convite que ele recebeu para participar da FLIP de Paraty, em 2018, um convite que é fruto de um intenso diálogo que mantive na época com a curadora, Josélia Aguiar, que queria a presença de um autor suíço, e para a qual sugeri o nome do Pusterla. Após a efetivação do convite e do seu aceite, fez-se quase natural propiciar em tempos breves uma amostra de sua obra. De comum acordo entre a curadora, Josélia Aguiar, pensamos que, para essa primeira abordagem do universo poético do Pusterla, seria interessante apresentar algo relativo ao seu diálogo com a natureza, um dos temas a ele muito caros.
Decidi, então, escolher poemas daqueles que até então eram os dois últimos livros, propondo-os de forma contrária à linearidade temporal, respeitando, portanto, algo que nele está muito forte, que é o movimento temporal às avessas, na escavação do passado, nas erosões de civilizações antigas.
Quanto aos poemas selecionados, a escolha se fez em função do tema, da melhor ressonância na língua portuguesa (lembrando que numa breve amostra, tende-se a privilegiar os poemas cuja resolução tradutória é melhor), e de comum acordo com o próprio Pusterla.
 
A natureza assume grande relevo nas obras de Pusterla. Em sua experiência como tradutora do autor, elementos da fauna e da flora desencadearam dificuldades de correspondência imagética? Outros aspectos acarretaram desafios no processo intercomunicativo estabelecido entre as culturas de partida e de chegada?
 
Você tem toda razão em perguntar isso. Geralmente, elementos da flora ou da fauna apresentam grandes desafios para os tradutores! Nesse caso, no entanto, não foi particularmente difícil. Acho que isso se deve, em parte, ao fato de que Pusterla se serve da natureza como uma metáfora de algo que emerge, por debaixo dela, e cuja manifestação representa apenas a ponta do iceberg. Então, acho que é mais difícil e importante, em sua poesia, entender o que está escondido por debaixo da natureza, para depois realizar uma tradução mais afinada com esse clima existencial. As dificuldades maiores foram de outra ordem: como disse antes, Pusterla tem uma dicção poética afinada com as características e ambiências da poesia lombarda, que não tem correspondentes diretos na tradição brasileira do mesmo período. Enquanto, no Brasil, a poesia dos anos oitenta saía, por um lado, da poesia marginal e, por outro, se desvencilhava aos poucos da herança neoconcreta, na Itália, os debates eram outros, e o “eu lírico” viveu um redimensionamento bem mais marcante do que no Brasil, tendendo a um apagamento ou, pelo menos, a um redimensionamento rumo a uma certa “humildade” diante da realidade. Isso traz como consequência o fato de que, às vezes, a poesia do Pusterla – como a de outros italianos – possa soar estranha ou impessoal aos ouvidos brasileiros. Então, tomei cuidado para escolher os poemas que, a meu ver, poderiam ser melhor apreciados por aqui.
 
No poema “Argéman”, o léxico enigmático evocado pela “língua de neve” implicou escolhas tradutórias peculiares? Por que o título do poema se reverbera no título da antologia, isto é, que relação poderia ser identificada entre o texto citado e o livro como um todo?
 
Gosto imensamente desse poema e desse título. Soa algo antigo, algo misterioso, soa algo que precisamos decifrar, uma sabedoria partilhada só por alguns. E, para o imaginário brasileiro, a neve tem um pouco esse elemento de fascinação e estranheza.
Quis manter esse título para a antologia justamente porque me pareceu perfeito para ilustrar tanto esse fascínio – que eu espero que o leitor brasileiro perceba ao entrar em seu universo poético – quanto certa modalidade de composição da poesia de Pusterla, justamente no que ela tem de “revelado” e de “escondido”, nos objetos da natureza que ele menciona e descreve e no momento subterrâneo que dela emerge, lentamente.
 
Tal qual Pusterla, você também é tradutora, poeta, professora e suíça, tendo como origem, portanto, um lugar marcado pelo plurilinguismo. De que maneira essa fragmentação identitária e um contínuo transitar entre línguas poderia contribuir para sua prática tradutória?
 
Sem dúvida, esse elemento plurilíngue é crucial na minha formação como pessoa e como poeta, e, agora, como tradutora. O fato de ter nos ouvidos e na boca sons de várias línguas ao mesmo tempo contribui para uma natural predisposição à constante negociação entre as línguas. Desligar uma língua para ligar outra, ou ligar duas ao mesmo tempo, é algo totalmente natural para mim, como para muitos no meu país, imagino. Essa consciência de uma falha – há algo que não conseguimos dizer ou traduzir perfeitamente, em nenhuma língua, inclusive porque a poesia representa uma “língua singular” – a consciência dessas muitas maneiras diferentes para expressarmos algo é importante para um tradutor, que nunca pode dar nada por óbvio. É preciso sempre recuar e observar, de longe, perscrutar, analisar o feito. Para refazer, se necessário. Acho que é preciso saber ouvir, acima de tudo. Penso que um bom tradutor é aquele que sabe ouvir: o outro, o silêncio, a própria voz.
 
Pusterla, em sua obra Quando Chiasso era in Irlanda, alude a três elementos que estariam, como sombras, na retaguarda daqueles que se dedicam à tradução: a paciência, o desespero e o amor. Você concorda com o posicionamento do escritor? De que forma esses elementos se inter-relacionam em seu trabalho como tradutora?
 
Interessante essa frase do Pusterla. Concordo. Talvez trocaria o desespero pelo desejo. E acrescentaria a escuta. Acho que a paciência é crucial: me parece que o tradutor é como alguém que vai tricotando algo, dia após dia, pacientemente, e cujo resultado final ele poderá ver e apreciar somente a trabalho concluído. O desejo é um dos motores vitais mais importantes, penso. Para quase tudo o que de importante a gente faz. Mas, na noção do desejo, tem essa falha, esse algo a ser realizado, a ser possuído – de onde o desespero, talvez, ao qual se refere Fabio. Desespero-desejo de ir ao encontro do outro, dos muitos outros, sabendo que somos tão infinitamente pequenos e finitos. E o amor, sim, gosto disso, como gesto supremo de entrega ao outro. Dar voz ao outro, prestar sua voz ao outro, ao que está em outra margem da cultura, ou aquele que já não está mais aqui. E fazer isso com uma generosidade que é inscrita nos gestos de amor. A escuta me parece dialogar com essa noção do amor, mas também declinada para dentro de si: escutar como ecoa em você (na sua própria língua) a língua do outro, como um ato de amor, uma gestação, um ato amoroso entre dois amantes.
 

De acordo com sua perspectiva, em que patamar se encontra a visibilidade da literatura e, mais especificamente, da poesia em língua italiana no Brasil?

 
Se, nas universidades brasileiras, sempre houve uma certa presença (e a defesa dessa presença) da literatura italiana como uma das mais ricas e importantes tradições literárias, inclusive em diálogo com a brasileira, me parece que estamos vivendo agora um momento de forte aumento no interesse pela literatura italiana fora das universidades. Acho que o mercado se interessa mais por literatura italiana em geral, fomentado por nomes como Elena Ferrante, Igiaba Scego etc. ou pelos clássicos do Novecento, como Calvino, Ginzburg, Pavese. Vejo um interesse mais vivo também pela poesia contemporânea, principalmente, graças ao movimento heroico das revistas on-line, dos blogs e das editoras independentes de poesia, que, no Brasil, estão realmente fazendo um trabalho fenomenal. É um bom momento, me parece. Há muito que se fazer, e, agora, parece existir um ouvido atento. As recentes publicações de traduções de Eugenio de Signoribus, realizada pela professora doutora Patricia Peterle, e de Patrizia Cavalli, por Cláudia Alves, sinalizam essa tendência a uma chegada de mais vozes, tanto de “clássicos” do Novecento italiano quanto de poetas contemporâneos.

 

REFERÊNCIAS:
 
PUSTERLA, Fabio. Argéman: antologia poética. Trad. Prisca Agustoni (org.). Juiz de Fora: Edições Macondo, 2018.
PUSTERLA, Fabio. Quando Chiasso era in Irlanda. Bellinzona: Edizioni Casagrande s.a., 2012.
WOLF, Caspar. Der Lauteraargletscher. 1776. Kunstmuseum Basel, Basel. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Caspar_Wolf_-_Lauteraar.jpg#cite_note-1. Acesso em: 22 out. 2021.

____________________________

Como citar: BELLEI, Julia. "Épocas, cosmogonias, perfeições precárias: os deslizamentos da obra de Fabio Pusterla em Argéman: antologia poética", v. 2, n. 11, nov. 2021.  Disponível em:  https://repositorio.ufsc.br/handle/123456789/230108

 



[1] Cf. Pusterla, 2018, p. 31.