Henriqueta Lisboa, tradutora de Dante (uma crônica), por Mariarosaria Fabris

Giovanni Boccaccio no Brasil, por Denise Bottmann

   

O triunfo da morte (1562), de Peter Bruegel
       

 Grassa a peste... e surge o Decameron. Seiscentos anos depois, ele aparece no Brasil.


 

 

I. Traduções integrais

 

Em 1956, sai sua primeira tradução integral, feita por Raul de Polillo, na coleção Edições de Arte, pela Livraria Martins. É uma edição de luxo, em 3 volumes em formato grande (25 x 45), com ilustrações a cores de Gino Boccasile (cuja trajetória no fascismo italiano e cujo papel no desenvolvimento do desenho de propaganda e erotismo na Itália mereceriam um artigo à parte) e introdução de Edoardo Bizzarri, então diretor do Instituto de Cultura Italiana no Brasil (aliás tradutor de, entre outros, Guimarães Rosa). Em 1959, a Martins lança uma seleção de 38 contos na tradução de Polillo, em volume único, com o título de Novelas do Decamerão.

Essa tradução de Polillo trafegará mais tarde para a Tecnoprint/ Ediouro, saindo em 1967 numa edição de bolso em dois volumes, quase ilegível de tão compacto e miúdo foi o tipo utilizado para a impressão. Mantém-se em seu catálogo até hoje, em sucessivas reedições com melhoria gráfica, inclusive numa edição de luxo lançada em 2018 pela Nova Fronteira, do grupo Ediouro. A tradução de Polillo sai também em 2000 e 2002 pela Itatiaia, de Belo Horizonte, e em 2004 pela Villa Rica (novo nome pelo qual a Itatiaia passara a atender).

            Anos depois, em 1970, a editora Hemus lança uma tradução atribuída a Torrieri Guimarães, também integral, numa edição em brochura um tanto tosca. Por aqueles mistérios editoriais que seguem por meandros que apenas as próprias editoras conhecem, essa tradução dita de Torrieri Guimarães tem uma fortuna inaudita. É licenciada para a Abril Cultural no mesmo ano de seu lançamento pela Hemus, em 1970, licenciamento este que se prolonga até 1989, com diversas reedições de alta tiragem. A seguir, passa a ser licenciada para o Círculo do Livro entre 1989 e 1993, e finalmente é licenciada para a editora Nova Cultural, onde continua a ser reeditada até 2003, sempre em tiragens na faixa de 70 a 100 mil exemplares por edição.

            Em 2013, a L&PM publica a tradução feita por Ivone Benedetti, numa proeza digna de todos os louvores. Atualmente encontra-se em sua terceira edição.

            Na segunda parte deste artigo, exporei as razões pelas quais considero que, na verdade, existem apenas duas traduções brasileiras, a de Raul de Polillo (1956) e a de Ivone Benedetti (2013), a dita de Torrieri (1970) não passando de mera contrafação.

Registre-se de passagem que, em 2005, a editora Crisálida licencia e publica a tradução lusitana de Urbano Tavares Rodrigues, intitulada Decameron: ou Príncipe Galeotto, lançada em 1976 pela Bertrand de Portugal.

Giovanni Boccaccio (c. 1450),
de Andrea del Castagno. Galleria degli Uffizi, Florença


II. Seletas

 

Já seleções e antologias existem várias. Seguem-se as que localizei.

Ao que tudo indica, o primeiro Boccaccio brasileiro surgiu em 1944. Trata-se de “A enganadora enganada”, em Os mais belos contos de amor dos mais famosos autores, com seleção e tradução de Persiano da Fonseca, pela editora Vecchi. Este conto reaparece em Maravilhas do conto italiano, pela Cultrix, em 1957, sem créditos de tradução.

Em 1945, saem três contos selecionados e traduzidos por Paulo Rónai e Aurélio Buarque de Hollanda, no primeiro volume de Mar de Histórias, pela José Olympio (atualmente pela Nova Fronteira). São eles: “O conto do judeu Melquisedec” (primeira jornada, terceira novela), “A dama na confissão” (terceira jornada, terceira novela) e “A marquesa de Montferrato” (primeira jornada, quinta novela). Foram reeditados na coletânea Contos italianos da Tecnoprint/ Ediouro em 1967.

Em 1951, sai uma coletânea d' Os famosos contos de Boccaccio (Il Decamerone), com 68 contos, em tradução de João Henrique, na coleção Eros, pela editora Prometeu, reeditada em 1960 e 1965.

Em 1958, temos uma coletânea de Contos burlescos de Boccaccio (Il Decamerone), em seleção e tradução de Milton Júlio, com ilustrações de Sylvio Ramirez, pela editora Reembolso Royal. A coletânea é reeditada sem data, em três volumes, pelo Banco Cultural Brasileiro.

Ainda em 1958, sai “Boca beijada não perde o sabor” (segunda jornada, sétima novela), na antologia Obras-primas do conto italiano, com tradução de Jacob Penteado, pela Livraria Martins.

Em 1959, é lançada a coletânea Histórias galantes, em seleção, tradução e introdução de Jamil Almansur Haddad, com 28 contos, pela Cultrix. É reeditada em 1960 e 1986 como Contos.

Como já dissemos acima, também em 1959 a Martins publica Novelas do Decameron, uma seleção de 38 contos na tradução de Raul de Polillo.

Ainda em 1959, sai “Catela no banho” (terceira jornada, sexta novela), na antologia Maravilhas do conto amoroso, pela Cultrix, mais uma vez sem crédito de tradução.

Nos anos 1950, é lançada uma coletânea chamada Contos da alcova, com seleção de Yves Idilio, pela editora carioca Noel Buchman, sem data de publicação. É reeditada em São Paulo em 1960 (O Livreiro) e em 1963 (Flamingo). Não sei qual é a novela de Boccaccio incluída nesse volume.

Em 1960, temos uma coletânea de Contos escolhidos do Decamerão, pela editora Cacique, sem crédito de tradução.

            No mesmo ano de 1960, sai “Um vaso de manjericão” (quarta jornada, quinta novela), em tradução de Paulo Rónai e Aurélio Buarque de Hollanda, publicado como o “Conto da Semana”, coluna semanal que ambos, ora juntos, ora alternadamente, mantinham no Diário de Notícias. O conto será incluído no volume 2 de Mar de histórias.

            Em 1963, sai “Andreuccio da Perúsia” em tradução de Hernâni Donato, no volume Novelas italianas, da coleção O Mundo da Novela, pela Cultrix.

Em 1969, saem as Seleções galantes do Decameron, em seleção e tradução de Éverton Florenzano, pela Livrobrás.

Em c.1971, sai Decamerão (fragmentos), com tradução de Sônia Botelho, como volume 8 da coleção Ficção, da Bruguera.

A título de curiosidade, vale registrar o lançamento, a partir de 1974, de uma série de adaptações em cordel, por Marco Moro, pela Luzeiro. Assim temos, por exemplo, “Dona Sarita e seus três machos”, “A moça que meteu o diabo no inferno”, “Chifre com chifre se paga” e várias outras mais.

Em 1988, sai a terceira jornada, primeira novela, numa coletânea chamada Horas de prazer, pelo Clube do Livro. Como na ficha descritiva da obra constam vários tradutores, não sei qual deles foi o responsável pela tradução do conto de Boccaccio.

Em 1996, é lançada mais uma coletânea de Contos do Decameron, com seleção, tradução e introdução de Pedro Garcez Ghirardi, pela editora Scrinium.

Em 2001, o conto sobre a siciliana e o mercador toscano (terceira jornada, primeira novela) e “Masetto de Lamporecchio” (oitava jornada, décima novela), em tradução de Octávio Marcondes, saem na antologia Os cem melhores contos de humor da literatura universal (org. Flávio Moreira da Costa), pela Ediouro.

Em 2006, temos “Vingança em Veneza” (quarta jornada, segunda novela), com tradução de Nilson Moulin, na coleção Dedinho de Prosa, pela Cosac Naify.

            Em 2008, sai “Saladino, ou às vésperas da Terceira Cruzada”, em tradução de Léo Schlafman, na antologia Os melhores contos de aventuras (org. Flávio Moreira da Costa), pela editora Agir.

            Aqui também a título de curiosidade, cito “Decamerão em cordel”, em Obras-primas universais em cordel, adaptação feita por Stélio Torquato Lima, lançada em 2009 pela Queima Bucha. Reeditada em Primas em cordel, em 2012.

            Em 2010, sai “Os dois maridos da bela ateniense”, em tradução de Léo Schlafman, na antologia Contos de amor e desamor (org. Flávio Moreira da Costa), pela Agir.

            Em 2013, temos Decameron – Dez novelas selecionadas, com seleção, tradução e prefácio de Maurício Santana Dias, e ilustrações de Alex Cerveny, pela Cosac Naify. São as novelas de “Ciappelletto da Prato”, “Andreuccio da Perugia”, “Masetto da Lamporecchio”, “Frei Alberto da Imola”, “Nastagio degli Onesti”, “Federigo degli Alberighi”, “Guido Cavalcanti”, “Peronella”, “Calandrino” e “Natan do Catai”.

           

 

III. Um breve cotejo

 

Passemos agora a uma rápida comparação entre a tradução de Raul de Polillo, de 1956, e a tradução atribuída a Torrieri Guimarães, de 1970.

Já Gabriel Perissé, em 2006, havia comentado as singulares semelhanças entre elas no artigo “Boccaccio e uma centena de histórias”, um de seus luminosos textos sobre traduções na revista Língua Portuguesa. Retomo uma parte do exemplo que ele deu naquela ocasião - é o início do parágrafo final do proêmio, e comento alguns aspectos:

 

Adunque, acciò che in parte per me s’ammendi il peccato della fortuna, la quale dove meno era di forza, sì come noi nelle dilicate donne veggiamo, quivi più avara fu di sostegno, in soccorso e rifugio di quelle che amano, per ciò che all'altre è assai l’ago e ’1 fuso e l’arcolaio, intendo di raccontare cento novelle, o favole o parabole o istorie che dire le vogliamo, raccontate in diece giorni da una onesta brigata di sette donne e di tre giovani nel pistelenzioso tempo della passata mortalità fatta, e alcune canzonette dalle predette donne cantate al lor diletto.

 

Em sua tradução, Polillo opera mudanças sintáticas expressivas. Assim é que a longa e complexa frase de seis linhas e meia se converte em cinco frases mais curtas em ordem direta, sofre algumas eliminações e apresenta poucas e simples intercalações (e não garanto que tenha captado o conteúdo original de maneira totalmente adequada):

 

Portanto, a fim de que para mim se corrija o pecado da Sorte, pretendo contar cem novelas, ou fábulas, ou parábolas, ou histórias, ou o que quer que sejam. A Sorte foi menos favorável, como vemos, para as delicadas mulheres, e mais avara se lhes mostrou de amparo. Em socorro e refúgio daquelas que amam, é que escrevo (porquanto, para as outras, bastam a agulha, o fuso e a roca). O que escrevo são coisas contadas, em dez dias, por um grupo honrado de sete mulheres e de três moços, na época pestilenta da passada mortandade levada a cabo. Acrescentam-se algumas cantigas das mulheres antes referidas, cantadas a seu gosto.

 

Goste-se ou não, aprecie-se a simplificação ou não, a intervenção de Polillo é clara e inconfundível.

Assim, quando se vê o trecho correspondente na tradução em nome de Torrieri Guimarães, evidencia-se a identidade sintática com o texto de Polillo e suas intervenções na construção das frases, além de reproduzir as mesmas supressões e alguns lapsos no nível semântico:

 

Assim sendo, para que se corrija, para mim, o pecado da Sorte, pretendo narrar cem novelas, ou fábulas, ou parábolas, ou estórias, sejam lá o que forem. A Sorte mostrou-se menos propícia, como vemos, para as frágeis mulheres, e mais avara lhes foi de amparo. Em socorro e refúgio das que amam, é que escrevo (pois, para as demais, são suficientes a agulha, o fuso e a roca). O que escrevo são as coisas contadas, durante dez dias, por um honrado grupo de sete mulheres e três moços, na época em que a peste causava mortandade. Ajuntam-se algumas cantigas das mulheres já mencionadas, cantadas à sua vontade.

 

No nível lexical, vários vocábulos na tradução dita de Torrieri são sinônimos próximos dos vocábulos empregados por Polillo (contar/narrar; favorável/propícia; delicadas/frágeis; referidas/mencionadas etc.), mas as alterações em relação às frases originais e o corte das orações são absolutamente idênticos. A hipótese de que dois tradutores diferentes consigam recortar um original exatamente da mesma maneira e redigir dois textos estruturalmente tão similares entre si quão distantes do original parece-me pertencer ao reino da impossibilidade.

Encerrando o trecho acima apresentado, temos:

 

Nelle quali novelle piacevoli e aspri casi d’amore e altri fortunati avvenimenti si vederanno così né moderni tempi avvenuti come negli antichi [...] (no original, a frase prossegue extensamente em várias orações)

 

Raul de Polillo converteu o longo período composto em três frases sucintas, pôs um fim abrupto ao extenso parágrafo e abriu novo parágrafo:

 

Nas mencionadas novelas, aparecerão casos de amor. Uns serão agradáveis; outros escabrosos. Registrar-se-ão outros acontecimentos felizes, ocorridos tanto nos tempos modernos, como nos antigos.

 

Torrieri Guimarães seguiu fielmente o mesmo recorte:

 

Nas ditas novelas surgirão casos de amor. Uns agradáveis, outros escabrosos. Serão registrados outros eventos felizes, passados tanto nos tempos atuais, como nos antigos.

 

Para concluir essa breve comparação entre os dois textos, detenho-me agora num exemplo pitoresco. Estamos na primeira história da quarta jornada, a tragédia amorosa de Ghismonda e Guiscardo:

 

Guiscardo non per accidente tolsi, come molte fanno, ma con diliberato consiglio elessi innanzi ad ogn’altro, e con avveduto pensiero a me lo’ntrodussi, e con savia perseveranza di me e di lui lungamente goduta sono del mio disio. Di che egli pare, oltre allo amorosamente aver peccato, che tu, più la volgare oppinione che la verità seguitando, con più amaritudine mi riprenda, dicendo (quasi turbato esser non ti dovessi, se io nobile uomo avessi a questo eletto) che io con uom di bassa condizione mi son posta.

 

Polillo verte:

 

Não foi por acaso, como fazem muitas mulheres, que fiquei com Guiscardo; ao contrário, escolhi-o, com espírito deliberado, antes e acima de qualquer outro homem; por via de manobra claramente premeditada, introduzi-o nos meus aposentos; e, com prudente perseverança, tanto da parte dele, como da minha, longamente gozei o prazer da satisfação do meu desejo. Afigura-se-me que você me esteja repreendendo, por eu haver amorosamente pecado; quer-me parecer, entretanto, que, acompanhando a opinião do vulgo, o senhor me repreenda com mais dureza por eu me haver entregue, como o senhor diz, a homem de baixa condição social; e isto, como se o senhor não se perturbaria, se eu houvesse escolhido, para o mesmo fim, um homem que fosse nobre.

 

Além do descomunal encompridamento da prosa boccacciana na tradução de Polillo, de sua prolixidade de intenção explicativa e seu distanciamento do original, note-se a curiosa oscilação no tratamento que Guismunda dá a seu pai Tancredi, ora “você”, ora “o senhor”, todavia tratado no original sempre pelo informal tu.

No texto de Torrieri, como se pode aferir abaixo, discerne-se claramente o decalque do texto de Polillo, submetido a um singelo copidesque, trocando aqui e ali alguns termos - e a impostura ganha um cômico requinte adicional com a preservação do oscilante tratamento que recebe Tancredi na tradução de Polillo:

 

Não foi casualmente, como fazem inúmeras mulheres, que fiquei com Guiscardo; pelo contrário, eu escolhi-o, com deliberação, antes e acima de outro homem qualquer; por manobra inteiramente premeditada, introduzi-o em meus aposentos; e, com prudente perseverança, tanto da parte dele, quanto da minha, longamente desfrutei o prazer da satisfação do meu desejo. Parece-me que você me repreende, porque eu amorosamente pequei; parece-me, contudo, que, seguindo a opinião popular, o senhor me censura, mais duramente, o fato de eu ter-me entregado, segundo diz o senhor, a homem de ínfima posição social; e isto, como se o senhor não ficasse perturbado, se eu escolhera, para idêntico fim, um homem da nobreza.

 

Por essa razão, parece-me improcedente considerar a tradução em nome de Torrieri Guimarães como uma tradução de direito próprio. Reduz-se a um simples copidesque efetuado sobre o texto de Raul de Polillo, dispensando o recurso ao original. É o que se chama contrafação.

Se é profundamente lamentável que tal contrafação tenha se disseminado entre 1970 e 2003 com alguns milhões de exemplares espalhados pelo Brasil afora, devido aos incautos licenciamentos da Abril Cultural, do Círculo do Livro e da Nova Cultural durante mais de trinta anos, com tiragens altíssimas em suas sucessivas reedições, que nos sirva de consolo a existência de uma segunda tradução legítima, de grande qualidade e respeito transtemporal pelo original: a já citada tradução de Ivone Benedetti.

  

Agradeço a Silvia Cobelo pela indicação da coletânea Contos da alcova e a Diego Giesel e a José Antônio Cavalcanti pelas informações sobre a novela incluída em Contos de amor e desamor.

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Como citar: BOTTMAN, Denise. “Giovanni Boccaccio no Brasil”. In "Literatura Italiana Traduzida", v.1., n.8, ago. 2020. Disponível em  https://repositorio.ufsc.br/handle/123456789/210159